sexta-feira, 1 de maio de 2015

Virgem Maria



Altar banhado ao luar
Com porcelanas brancas
A Virgem Maria vulgar
Toma o lugar das prostitutas
Seus dedos curvam-se
Os mamilos rosados
Contrastando contra a palidez
Da pele macia que homens
Apoiavam no fim do dia
Suas cabeças e gozavam
Sobre suas coxas as deles
Suadas, fortes e rijas
A virgem gritava e berrava
Era sempre sua primeira vez
O sangue sempre escorria
Da eterna Virgem Maria.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Adeus Mulher!

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Ophelia - John William Waterhouse

Adeus Mulher!
Por ti não derramarei sequer
Uma lágrima a mais
em minha fronte

Tampouco viverei de pesares
Porque um dia te amei
Não mais desnorteado ficarei
Por teu dorso ao chegar a aurora

Teu nome não mais declamarei
Nas vagas noites que passarei sozinho
De tuas carícias e tua pele branqueada
Não mais serei fiel

Nunca mais verei os teus brilhantes
E não os desejo vê-los em pranto
Não a digo mais o quanto amo
E nem tanto viverei mais de teus mimos

Apenas declamo este poema
Sem nem sequer recitar-te
Apenas a tua doçura angelical
De tua pele que é mais bela que a arte.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Reminiscência


Daquela dança que tivemos na festa
Já não lembro, estava eu em torpor.
Em minhas lembranças, nada resta.
Assim como o nosso amor.

Meu coração partiu-se ao lembrar
Da noite em que você me deixou
Pois eu fui, e você não estava lá,
Um de nós nunca mais amou.

Se um dia eu te visse na estação,
Eu certamente preferiria os trilhos,
Que esmagaria meu coração
Com mais piedade do que fizeste comigo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A Primeira Estrela

Noite estrelada sobe o Ródano (1888) - Van Gogh

A primeira estrela ilumina o céu escuro
A primeira estrela decaída
A primeira estrela que paira sob o muro
A primeira estrela, co' as outras infundida

A primeira estrela que ilumina os leitos
Ilumina também minha fronte sonhadora
Ilumina os sepulcros que estão desfeitos
Ilumina minha mente amadora

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Honrarias

Com a tinta de sua caneta
Extraída de forma manual
O líder assina em vermelho
E o soldado é a caneta atual.

Alheio à valsa, o soldado
Enfrenta conflitos diferentes,
Sua honrada missão
Ou o despertar do seu coração?

Com a caneta de sangue,
Assina-se a limiar
Que te proíbe que mande
No teu corpo e amar.

Tiraste a vida de cem homens,
E por isto tu foi recompensado.
Porém, infeliz, amaste um homem,
E por isto tu foi desonrado.







segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Perdão

Gustave Doré

                                                                                 Que ventre produziu tão feio parto?
                                                                                              (Augusto dos Anjos)


Perdoa meu pai este teu herdeiro
De vida decaída e fracassada
Rouba-lhe o sono e os réis na alvorada
Sou um verme, pútrido e carniceiro

Perdoa ó mãe este infeliz
Que de saíra de teu ventre com desesperança
Um homem que mais parece uma criança
Um louco que em solidão se torna bardo

Perdoai-me meus avós por esta vida
Que vivi intensamente em prol do nada
És a hora de minha amarga despedida
Minh'alma despede-se desta jornada

Perdoai-me minhas irmãs, pois este homem frívolo
Que agora vede partindo deste engano
Escreve como Augusto¹ que foste teu ídolo
Em dores agonizantes morre este ariano



Nota ¹: Augusto dos Anjos, poeta brasileiro do Simbolismo e Parnasianismo.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ode ao Dante Negro

Cruz e Sousa por E. Dias

                                                                                Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro
                                                                                Ó ser humilde entre os humildes seres
                                                                                Embriagado, tonto dos prazeres
                                                                                O mundo pra ti foi negro e duro
                                                                                             (Cruz e Sousa)

Dante Negro
Assim foi alcunhado o simbolista
Nascido em Nossa Senhora do Desterro
No estado de Santa Catarina

Homem de formação parnasiana
Percursor do simbolismo no Brasil
17 anos de vida e poesia
Viveu e tão rápido partiu

Com infindáveis spleens e sonetos
Que muito mais valem do que réis
Temos duas de suas grandes obras
Faróis e Broquéis

Sonoridade presente em seus versos
Aliou-se a angústia e a miséria
Longos anos viveu com o infortúnio
Desta vida, errante e tão séria

20 de Novembro, é nesta data
Que em versos homenageio o que repousa
Filho de escravos alforriados
Este foi o poeta Cruz e Sousa

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Guarda



Aos cantos desta terra tão queimada
O sol percorre todos estes matos
Norte a Sul há um poeta escravizado
Por oligarcas, pútridos e caricatos

Homens, de réis abastecidos
Assassinam um crioulo desdentado
O grito negro que agoniza os seus ouvidos
Demonstram quanto ódio está guardado

Não é apenas um guarda que circunda
Sob o cortiço tão sujo e humilhado
Por oficiais com farda moribundas
Que andejam truculentos e armados

O Viúvo



Nas noites de luar a vejo a espreita
De uma janela e de um frio e amargo assento
O dorso triste e acanhado se deita
A esperar a morte neste relento

Se estes versos corressem como o vento
Teria a força de um tufão
E as lágrimas que ilustram este alento
Maratona sob o meu busto em vão

Como uma trincheira, forte que desaba
Meu coração cai em pedaços e arrefece
Mas como um nó forte que ninguém desata
Este viúvo de sua amada não se esquece

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Carta de um Cego

Pablo Picasso

Nunca pude ver as flores
Desabrochar nos campos
Nunca pude ver as cores
Nas pinturas manchar o branco

Nunca pude ver as estrelas
Iluminar minha vista escura
Nunca pude ver o sol
Rente as nuvens co' muita alvura

Nunca pude ver os pássaros
Apenas ouvir o canto
Chorar por isto sempre pude
Mas nunca, ver a cor do pranto

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Baía de Todos os Santos

Invasão Holandesa Bahia
Andries van Eertvelt

O que vedes nestes campos de harmonia?
Bahia
O que vedes neste céu que voa o Condor?
Salvador

Que poetas viveram nestes areais vastos?
Castro e Matos
Qual poeta que amou neste estado?
Jorge Amado

Que sereia que este oceano domina?
Janaína
Quem habita nas águas deste mar?
Iemanjá

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ode a um Poeta




O bardo louco está a caminho
Em suas andanças este poeta chora
Vai longe, sobranceiro e esguio
Tu' alma rompe no resplandecer da aurora

Busca no óbito a tua donzela
A Morte lhe espera neste terreiro vasto
E montado num cavalo foge da cela
Adquire a febre tuberculosa, e morre aos poucos p'ra longe do pasto

"Que fatalidade meu pai"

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Cidade Cinza

Julio Kohl
O manto nublado já paira
A lágrima sem cor enrubesce
Na cidade em que todos são cinzas
Ninguém escuta minha prece

Na cidade em que todos são cinzas
Ninguém conhece a verdade
Na cidade em que todos são cinzas 
Vence quem tem mais maldade

Na cidade que não tem várzeas
Só uma flor será colhida
Poesia, flor dos poetas
Poesia, flor da minha vida

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Luar com a Donzela

                                        Ralph Albert Blakelock

                                                                              Sonha poeta, sonha! Ali sentado
                                                                              No tosco assento da janela antiga,
                                                                              Apóia sobre a mão a face pálida
                                                                              Sorrindo - dos amores á cantiga
                                                                                  Álvares de Azevedo
Nas campinas, nas várzeas e nas praças
O doce eco do louvar a ti
Minha poesia nasceu de suas graças
Mas o lirismo morre hoje aqui

Vejas envolta o clarão da madrugada
E uma cantiga que está a ecoar
Um épico de amor e harmonia
Pela pálida mais bela do luar

Digo a ti, em minha vida campestre
Hei de fazê-la sempre a poesia
Poesia, aventura mais bela terrestre
Que põe fim em toda a monotonia

Olharei a face cristalizada tua
Hei de amar este teu semblante
Sem véu, verei tua face nua
No eterno momento deste instante




quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Moça do Lago



Como posso orquestrar a dor insana?
Que alastra esse ardor sob o meu peito
O amor meu coração afana
E o deixa mutilado e putrefeito

A face linda, tão bela que corava
Nas épocas do meu amor nupcial
Nas madrugadas, os meu lábios contornava
P'ra uma face tão bela e angelical

Face linda, tão bela e graciosa
Teu sorriso resplandecia tão joliz
Sua alvura era a coisa mais formosa
Sua partida tornou-me infeliz

domingo, 7 de setembro de 2014

Chegada da Primavera

Deriomar Viana do Prado




















O vento que sopra sob o céu sereno
Na noite escura do inverno sombrio
Mostra a face do poeta derradeiro
Que escreve isto de coração vazio

Amou nos clarões da mocidade
Sorriu no resplandecer da aurora
Hoje de sua cavidade
Jorra pranto quando ele chora

O amanhã, há de ser esta noite
Que chora pelas nuvens tão escuras
O poeta recebe as dores de um açoite
Sua poesia é um ato de bravura

Os últimos suspiros afagados
Naquela linda e doce atmosfera
Morre o poeta, do amor exilado
Ao chegar da triste primavera

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Noite da Partida


                                                                             Essa obsessão cromática me abate.
                                                                             Não sei porque me vêm sempre a lembrança
                                                                             O estômago esfaqueado de uma criança
                                                                             E um pedaço de víscera escarlate                                                                                                                               (Augusto dos Anjos)

Porque no meu peito tu jazias?
Leviana de amores deletérios
Tua face ruborizada embelecia
E ao luar fazia-me mistérios

Na partida teus olhos me guiam
Iluminam-me tanto quanto um candeeiro
Teu sorriso e tua face já jaziam
Ao leve toque do sineiro

Quando nas noites sutis de primavera
O toque de tua mão me acalentava
De teu gélido busto eu estava a espera
Para tornar-me o pranto que a face enseava

O pranto por ti tão jorrado
Na noite do partir, triste tão quanto
Tão quanto a poesia de um poeta
Que soa nas vozes como um canto

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Pesar Negro



 Sinto o pesar negro de suas pálpebras pranteadas
 Que exalam o teu ser de mim tão distante
 As lágrimas com seu rubor e ensanguentadas
 Demonstram o teu ser, tão conflitante

 Minha mente talhada em penumbra
 Teu choro acuado e tão etéreo
 Expõe a vastidão do meu ser docente
 Que ensinou-lhe esse amor que é tão venéreo

 Olhos que brilham tanto quanto a lua
 Paralisam o sol numa manhã
 Teus olhos, levou-me a boca tua
 Paralisou o meu ardiloso afã

 Procurei-te nas praças, nos bosques, nas relvas
 Apenas teu cadáver encontrei
 Na noite das insônias e ardores
 Tua face tão bela eu velei

domingo, 17 de agosto de 2014

A Moça do Bosque

Deriomar Viana do Prado
                                                     Quanto riso, ah quanto alegria
                                                     Mais de mil palhaços no salão
                                                     Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
                                                     No meio da multidão
                                                                                                      Zé Keti

Se uma dádiva os lábios me beija
Se tua mão macia me afaga
Faz-se a faísca quando me deseja
Incendia, mas com um beijo me apaga

Se o véu tiro-lhe na noite escura
Para ver a tua face tão bela
Eis que surge a esbranquiçada bruma
Que não me deixa ver os olhos da donzela



terça-feira, 29 de julho de 2014

Triste Aurora

                                       
Rômulo Rodrigues
                                                                 "E na tempestade o sol nascerá"
                                                                                   Cartola
                                                                 "Aurora vem raiando anunciando nosso amor"
                                                                                   Ismael Silva


A paixão que tenho tão ardilosa quanto a chama
Que na aurora levará o meu amor
Que morre, sangrenta sob a cama
Mas em mim que tua morte foi dolor

Jorrou pranto do sol pós a lua
Choro por ela, minha pálida amada
Com a pele macilenta e a carne crua
Sepultarei o corpo dela na alvorada